Publicado por 6:32 pm Cultura, Exposição

Farol Santander São Paulo abre exposição de Cícero Dias com destaque para obras inéditas no Brasil

Em evidência está a obra Cabaré (1920), exibida no Brasil pela primeira vez.

Farol Santander São Paulo, centro de cultura, lazer, turismo e gastronomia, inaugura no dia 24 de janeiro (sexta-feira), a exposição Cícero Dias – com açúcar, com afeto. Com 42 obras, a mostra, que tem curadoria de Denise Mattar, produção de MG Produções e consultoria de Sylvia Dias (filha do artista), será a primeira de 2025 e faz parte da programação comemorativa pelos sete anos do Farol Santander São Paulo. O público poderá visitar a exposição que ocupa toda a galeria do 22º andar, até 27 de abril (domingo).
 

“O Farol Santander tem orgulho em apresentar ao público a obra de Cícero Dias, artista emblemático do modernismo brasileiro, cujo trabalho transcende fronteiras e dialoga com as vanguardas internacionais. Sua arte, marcada por uma paleta de cores vibrante, reflete as paisagens e a cultura nordestina, evocando a essência lírica do Estado de Pernambuco”, comenta Maitê Leite, Vice-presidente Executiva Institucional Santander.
 

A exposição sustenta como proposta realçar a trajetória do artista, contextualizando sua história e evidenciando sua profunda relação às origens pernambucanas. Embora tenha vivido a maior parte de sua vida em Paris, onde foi amigo de Pablo Picasso, Paul Éluard, Alexander Calder entre outros, Cícero Dias nunca deixou de fato o Engenho Jundiá, onde nasceu.
 

O percurso circular da mostra apresenta as aquarelas oníricas da década de 1920. Exibe também as pinturas memorialistas dos anos 1930, atravessa o surrealismo dos anos 1940, aponta a abstração da década de 1950, e traz sua produção dos anos 1960 a 1990, quando ele retorna à figuração, incorporando toques nostálgicos dos anos 1930, acentos surrealistas da década de 1920 e as conquistas estruturais da abstração.
 

“Lírico, agressivo, caótico, sensual, poético e emocionante, o trabalho de Cícero Dias, no final dos anos 1920, era muito diverso de tudo o que se produzia na época. Ele sacudiu os nossos incipientes modernistas, estonteados pela força, a estranheza e a espontaneidade de sua obra”, diz Denise Mattar curadora da mostra.
 

Um dos destaques da exposição é a obra inédita Cabaré, déc.1920, uma aquarela sobre papel com dimensões de 49,5 x 29,5 cm. Este trabalho foi adquirido por um colecionador francês nos anos 1930, após uma exposição de Cícero Dias em Paris, permanecendo na Europa desde então. Recentemente, a obra foi adquirida pelos colecionadores brasileiros que a cederam para esta mostra.
 

Outro significativo trabalho de Cícero Dias exibido nesta exposição é a tela aquarelada Casa grande do Engenho Noruega (1933). Esta obra é uma das principais da carreira do artista e ilustrou a capa de diversas edições do livro Casa-Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, um marco na literatura brasileira.
 

O ambiente também contará com duas obras táteis, com recurso de acessibilidade, incluindo Baile no Campo (1937), da Coleção Santander Brasil, e Sem Título (s.d.), da Coleção Marcos Ribeiro Simon, São Paulo, SP.

Entre as telas que integram o espaço, há peças provenientes de algumas das principais instituições, como o Santander Brasil, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (RJ), o Museu de Arte Moderna de São Paulo, o Museu de Arte Brasileira da FAAP (SP), o Instituto São Fernando (RJ), além de colecionadores particulares, como Gilberto Chateaubriand (RJ), Waldir Simões de Assis (PR), Marta e Paulo Kuczynski (SP), Leonel Kaz (RJ), Marcos Simon (SP), entre outros.
 

A exposição

A curadoria e a expografia organizaram a exposição em núcleos, mantendo a circularidade e criando assim uma leitura que não é estanque, mas simultânea e entrecruzada. A mostra não se apresenta como uma retrospectiva, mas sim como um recorte que evoca o aspecto doce e afetuoso do trabalho do menino de engenho.
 

“Sonhos”:
 

Em 1928, Cícero Dias, com apenas 21 anos, realizou uma exposição de aquarelas na Policlínica, no Rio de Janeiro, que atraiu a atenção de toda a intelectualidade carioca. O artista apresentou um trabalho que rompia com as correntes estéticas da época, sem seguir os estilos cubista, impressionista ou expressionista.
 

O núcleo reúne nove obras produzidas entre 1925 e 1933. Dentre as peças, destacam-se as aquarelas Bagunça, 1928 (coleção particular), Jogos, 1928 (acervo Museu de Arte Brasileira – MAB/FAAP) e Cabaré, tela inédita, 1920 (coleção particular).
 

Também como destaque deste conjunto há o Retrato de Manuel Bandeira, s.d. (coleção Gilberto Chateaubriand, MAM Rio), que carrega uma curiosidade importante: Cícero Dias e o poeta Manuel Bandeira foram grandes amigos. Em um de seus escritos, Bandeira fez uma homenagem ao artista, evidenciando a relação próxima entre ambos e a admiração mútua que existia entre eles.
 

O Rio não deve ter esquecido aquele estranho rapaz que um dia expôs na sala térrea do derrubado edifício da Policlínica, à Av. Rio Branco, uma abracadante coleção de aquarelas diante das quais o visitante incauto era desde logo tomado por uma impressão de atropelamento (…). Manuel Bandeira
 

“Recordações”:
 

Esta ala engloba os anos entre 1930 e 1939, quando a produção de Cícero Dias torna-se mais lírica, centrada nas suas lembranças de infância no Engenho Jundiá. A transição da aquarela para o óleo altera a dinâmica de sua produção, tornando-a mais narrativa, estática e construída. Durante esse período, ele também cria um contraponto às suas memórias rurais, retratando as recordações urbanas de sua juventude no Recife, com suas casas coloniais à beira-mar, sobrados, interiores e jardins com casais românticos.
 

Composto por 16 obras, em sua maioria óleos, são exibidas as aquarelas Os Senhores das Terras, 1920 (Coleção Tuiuiú, Rio de Janeiro, RJ), Freiras e Meninas, 1920 (Coleção particular, Rio de Janeiro, RJ), além da famosa litografia aquarelada que ilustrou a primeira versão de Casa-Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, com quem Cícero Dias mantinha uma grande amizade.
 

Dentre as obras de destaque, estão os óleos Canavial, 1927 (Coleção particular, Curitiba, PR), Baile no Campo, 1937 (Coleção Santander Brasil)e Casal com Criança, 1930 (Acervo Museu de Arte Brasileira da FAAP).
 

“Cronologia”:

Seguindo para o espaço da “Cronologia”, destaca-se a mudança de Cícero Dias para Paris, em 1937, motivada pela perseguição política na Era Vargas. Em Paris, sua arte surrealista ganhou destaque e sucesso imediato a partir da exposição na Galerie Jeanne Castel.
 

Esse momento será apresentado por uma cronologia dinâmica, exibida digitalmente, com fotos extraordinárias do artista ao lado de personalidades como Picasso, Max Bill, Paul Éluard, Di Cavalcanti, entre outros.
 

“Novos Caminhos”:
 

O núcleo aponta o momento em que Cícero Dias segue para Lisboa. De lá, ele deveria partir para o Brasil, mas decide casar-se com sua então companheira Raymonde e permanecer em Portugal. Durante essa fase, sua obra passa por uma transformação radical, com o uso de desenhos simplificados, pinceladas brutas, cores inusitadas e intensas.
 

Em 1948, Cícero Dias executa no Brasil uma série de pinturas murais abstratas, consideradas as primeiras da América Latina, realizadas na sede da Secretaria da Fazenda do Estado de Pernambuco, no Recife. Essa produção abstrata foi acolhida com entusiasmo na Europa, e o artista passou a integrar o Grupo Espace, expondo na importante galeria francesa Denise René.
 

Este período da exposição, conta com cinco obras:Mulher na praia, c. 1944 (Coleção Gilberto Chateaubriand MAM Rio), Pássaro, 1940 (Coleção particular)obra inédita que pertenceu a Gilberto Freyre, Sem título, déc. 1940 (Coleção particular), Musicalidade, 1949 (Coleção particular)e Abstrato, 1964 (Coleção Marcos Simon).
 

“Reminiscências”:
 

“Reminiscências” retrata o final dos anos 1950, quando Cícero Dias retomou a figuração, voltando às suas origens e resgatando o imaginário lírico de sua terra natal. Incorporando suas descobertas ao longo da vida, trouxe de volta a delicadeza das mulheres sonhadoras dos anos 1920, mantendo os traços largos e a audácia colorística dos anos anteriores. Suas novas obras foram sustentadas pela estrutura geométrica de sua abstração. Essa fase seguiria até o final de sua vida, com um tom mais suave e doce.

O núcleo reúne 11 obras produzidas entre os anos 1950 e 1980. O conjunto reúne obras bastante significativas dentro desse momento, como: Nostalgia, 1950 (Coleção Instituto São Fernando, Vassouras, RJ), Caminho da vida, 1950 (Coleção Leonel Kaz, Rio de Janeiro, RJ), Vaso de Flor, Figuras e Casario, 1960, (Coleção Ivani e Jorge Yunes, São Paulo, SP), Sem título, s.d. (Coleção Marcos Ribeiro Simon, São Paulo, SP), Canoeiro, 1980. (Coleção particular, Curitiba, PR).
 

Cícero Dias

Nascido em 1907, no Engenho Jundiá, Pernambuco, Cícero Dias ingressou nos cursos de Arquitetura e Belas Artes no Rio de Janeiro, mas não os concluiu. Em 1937, mudou-se para Paris, onde viveu até o fim da vida, integrando-se plenamente à vanguarda artística europeia. Apesar da distância, o Brasil permaneceu presente em sua obra, assim como ele nunca foi esquecido por seu país natal.
 

Em 1938, durante sua primeira exposição em Paris, o crítico francês André Salmon descreveu Cícero Dias como um “selvagem esplendidamente civilizado”, uma definição que acompanhou toda a carreira do artista, de sua estreia em 1928 até seu falecimento em 2003. Com uma trajetória longa e prolífica, Cícero Dias manteve uma fidelidade rara a si mesmo, sempre ousando criar livremente, sem temer críticas.

Sobre Denise Mattar

Foi diretora do Museu da Casa Brasileira, Museu de Arte Moderna de São Paulo e Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Como curadora independente realizou mostras retrospectivas de Di Cavalcanti, Flávio de Carvalho (Prêmio APCA), Ismael Nery (Prêmios APCA e ABCA), Pancetti, Anita Malfatti, Samson Flexor (Prêmio APCA), Yutaka Toyota (Prêmio APCA), entre outras. E mostras temáticas como: Traço, Humor e Cia, O Olhar Modernista de JK, O Preço da Sedução, O Brasil, Homo Ludens, Nippon, Brasília – Síntese das Artes, Tékhne, Memórias Reveladas, (Prêmio ABCA) e Prêmio Governador do Estado pela exposição um presente para Ciccillo, FAMA, Itu.

Serviço: Cícero Dias – com açúcar, com afeto

Onde: Rua João Brícola, 24 – Centro (estação São Bento – linha 1, azul do metrô)

Site Farol Santander: farolsantander.com.br

Telefone Farol Santander: (11) 3553-5627

Funcionamento: terça-feira a domingo

Horários: 09h às 20h

Ingressos: R$ 45,00 (R$ 22,50, meia-entrada)

Cliente Santander: 10% de desconto comprando com o cartão Santander (em até 8 ingressos).

Cliente Santander Select: 10% de desconto comprando com o cartão Santander Select (em até 8 ingressos), e prioridade na fila de entrada para o Farol.

Compra online: https://www.farolsantander.com.br/#/sp (vendas também na bilheteria local)

Classificação: livre

Crédito fotos: Divulgação.

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