Entre projeções e sabores andinos, casa no Centro abre espaço para a videoarte
É difícil falar do circuito cultural de São Paulo sem mencionar o Cineclube Cortina. Aberto em 2022, o local trouxe uma proposta ousada de oferta cultural, mesclando sessões de cinema, shows, festas e audições, com comida caprichada e coquetelaria premiada. Agora, ele se reinventa para dar mais uma faceta à vida noturna de São Paulo: em maio, a casa reabriu seu bar e restaurante no piso térreo com nova estrutura, cardápio, carta de drinks e propósito.
A repaginação vem da inquietude dos sócios Raphael Barreto e Marcelo Sarti. Motivados a ampliar a integração entre o espaço e o audiovisual, os sócios agora guiam a casa sob o mantra “vídeo em primeiro lugar”. Esse movimento pediu por um rebatismo, naturalmente: o local passa a se chamar Cortina. Sai o “cineclube” para dar espaço à toda expressão artística em vídeo.
Assim, o espaço do andar térreo se volta para sua nova estrela, um tela digitalmente mapeada, que percorre os 22 metros da parede paralela ao bar para receber projeções de videoartistas de todo o Brasil. Quem chega no salão pode se sentar confortavelmente, comer e beber enquanto aprecia as obras.
“A intenção com essa mudança foi, a partir da nossa vocação intrinsecamente ligada ao universo visual, proporcionar às pessoas uma vivência inédita em São Paulo. Colocamos as mais diversas expressões da videoarte no centro da proposta do Cortina, complementada por uma gastronomia e coquetelaria de excelência, para que a vivência dos clientes seja completa e memorável ”, explica Marcelo Sarti, sócio e co-fundador.
Cria-se, assim, o primeiro “bar-de-ver” da cidade. “Não queríamos aderir à tendência dos Listening Bars; almejamos algo que respeitasse a identidade do Cortina. Chegamos ao conceito do ‘bar-de-ver’, dando escala a uma vivência que sempre carregamos em nossa identidade”, complementa Raphael Barreto, também sócio e co-fundador da casa.
Essa entrega é potencializada pela cozinha e bar, que ficam aos cuidados de Checho Gonzales (Mescla), e Daniel Gomes (ex-Riviera), respectivamente, com carta de drinks autorais assinada por Grecia Vascal (Iccarus, Bar dos Arcos e Carnaval no Peru). Com chefs boliviano e brasileiro e uma mixologista peruana, o Cortina segue misturando os sabores dos Andes com o tempero brasileiro, reafirmando seu DNA latinoamericano.
Galeria viva
A aposta vanguardista em um “bar-de-ver” exigiu uma reforma completa do espaço. A começar pelo cuidado técnico na execução da tela, que foi concebida e implementada por Cristhian Lins, artista visual e especialista em video mapping. O espaço de projeção se estende por 22 metros de comprimento e dois de altura, com resolução de 11.340 x 1080 pixels, com alta definição.
A curadoria desse novo equipamento fica aos cuidados de Gabriel Rolim, artista conhecido como Rollinos, que atua na criação dos visuais de diversas bandas como Tame Impala, Lauryn Hill, Boogarins e Mochakk. “O Brasil sempre esteve em evidência no mapa dos VJs. Algumas tecnologias desenvolvidas aqui são exportadas para o mundo todo para serem usadas em diversos festivais, shows, festas, etc. Essa nova curadoria do Cortina será focada em criar um espaço que evidencie os VJs brasileiros em sua diversidade, oferecendo espaço e prestigiando o potencial criativo da obra de cada um” Gabriel explica. A programação pensada por ele recebe um novo artista visual a cada quinzena, complementada pela cuidadosa curadoria musical de Mariane Villas-Boas, que converge e amplifica a experiência.
A partir dessa reestruturação, portanto, o Cortina se insere definitivamente no mundo das artes visuais como uma galeria viva, unindo a exibição hi-fi de arte digital com a experiência gastronômica e a programação noturna de shows e festas que acontecem no subsolo. A casa se aproveita de seu espaço versátil e dobra a aposta em ser motriz da agitação cultural no centro de São Paulo.
Mesmo endereço, outro lugar
A estrutura cosmopolita e brutal da Metro Arquitetos foi complementada pelo design de interiores e de luz orquestrado pelo Estúdio Vértices. O projeto foi pensado para acomodar o protagonismo do telão: as luzes baixas trazem um clima aconchegante e não refletem nas telonas, e as cadeiras dão um giro 360°, para quem estiver no bar poder avistar as projeções confortavelmente, sem torcer o pescoço.
A latinidade que norteia os sabores do Cortina
Nas taças e nos pratos, a cultura latino-americana segue dando o tom do Cortina: essa nova fase traz a cozinha do chef boliviano Checho Gonzales e a carta de drinks da peruana Grecia Vascal.
A começar pelas arepas, entradinhas de origem pré-colombiana, em massa de milho moído, que incorporam a variedade de culinária andina. Pode-se escolher entre a arepa de bisteca de porco com especiarias e queijo gratinado, abacate, vinagre de cebola; a arepa de queijo da canastra fresco, rodelas de tomate e tiras de abacate; ou a arepa de peixe empanado em molho de tomate e maionese com picles (R$ 35 cada). Os frutos do mar estão presentes no ceviche (R$ 52) e na entrada de espetinho de lula com presunto curado e creme ardido de amendoim (R$ 32).
As cumbucas da casa são encorpadas. A de coração de galinha acompanha farofa de mate e bernaise com coentro (R$ 45), e a de arroz de camarão acompanha pedaços de lula e cubos de peixe ao açafrão e vinagrete de manjericão (R$ 65). Como opção vegetariana, uma ótima pedida é a cumbuca de arroz de cogumelos na manteiga com vinagrete de cebolinha e crocantes de batata (R$ 58).


No bar, os drinks de Grecia apostam em notas mais salgadas, em contraponto a sabores doces e cítricos, misturas temperadas e componentes comestíveis. Uma verdadeira festa sensorial. Nomeados a partir de elementos que fazem parte do universo audiovisual, o Blur (R$ 48) é a base de cachaça premium, vermute rosso, Aperol, Campari com toque trufado e lemon pepper acompanhado de um guioza de camarão sobreposto na colher. Já o Pan (R$ 54) é frutado, levemente apimentado e borbulhante, composto por tequila, limão, soda de pera e jalapeño, servido com uma telha de chocolate com pitada de sal grosso, purê de pera doce e brotos de coentro. Para comer de colher, o Zoom (R$ 56) apresenta uma pavlova de limão banhado pelo mix de vermouth dry, mel e bitter de cacau. Como opções sem álcool, Grecia preparou o Frame, com água tônica, soda de maçã e chá mate, e o Lux, com cordial de cenoura, laranja, curry e folhas de coentro (R$ 29 cada).


A cozinha e o bar funcionam das 18h à 1h. Para mais informações sobre a programação, consulte a página do Instagram da casa, que passa a ser @cortina.sp.
Crédito fotos: Angelo Dal Bó.